sábado, 18 de junho de 2016

Para além das tragédias: sobre violências e fascismos cotidianos

Para além da comoção nacional dos absurdos ocorridos tanto do massacre em Orlando(EUA) quanto dos estupros coletivos ocorridos no Rio de Janeiro e Piauí as tragédias trazem questões importantes para o centro das discussões ao ganhar espaço no debate público e nas mídias. Por isso, um olhar crítico em relação aos fatos se torna importante para não se tornarem aberrações, casos extraordinários que muito alimentam as manchetes dos jornais mas pouco contribuem para uma discussão produtiva no sentido de problematizar e combater preconceitos enraizados.
Quando levamos pelo lado sensacionalista o caso se torna isolado e não relacionamos com práticas cotidianas e é justamente esse o ponto que precisamos nos agarrar para nossas ações e resistências do dia a dia. Afinal tais violências são cotidianamente alimentadas por atos, gestos e discursos de ódio e não são casos tão distante de nossas realidades...
Um desses caminhos de tornar as tragédias enquanto aberrações é a patologização dos agressores enquanto o louco, o desviante, o doente, o terrorista.... e uma forma de não nos culpabilizarmos pelo ocorrido. Encarar os agressores enquanto o “outro” faz com que o problema se torne distante e corrobora para não associarmos com os microfascismos cotidianos, com nossas práticas machistas e homofóbicas, com nossos relacionamentos abusivos, com nossas opiniões conservadoras sobre o “comportamento adequado” de mulheres, gays, transexuais. Aí o atentado e o estupro se tornar coisa de gente maluca, paranoica, que nada se relaciona com nossa cultura do estupro e a sangrenta realidade.
Certamente os dados sobre violência doméstica no Brasil contrariam esse discurso, muito embora não seja essa impressão que temos no imaginário popular: ao invés do terror de insanos estupradores da rua escura grande parte da violência cometida contra as mulheres, cerca de 67%, ocorrem por aqueles que elas têm ou já tiverem algum vínculo afetivo, ou seja, companheiros, namorados, conjugues, amantes, ex-companheiros, ex-cônjugues, familiares, amigos, vizinhos, conhecidos.
Com isso, não queremos dizer que o espaço público é de segurança para as mulheres e que nas ruas esse tipo de violência não ocorre, mas que esse imaginário do estuprador enquanto o outro desconhecido, o doente é apenas uma forma de não questionarmos a cultura do estupro presente em nosso dia a dia, em nossas práticas e como contribuímos para que casos extremos ocorram.
Afinal, -aparentemente- ninguém manifestará a favor de um estupro de 30 homens em uma menor de idade ou de uma chacina em uma boate gay. Além de reverberar como um caso isolado nos faz crer que o machismo, racismo, homofobia, transfobia, lesbofobia, bifobia, apenas se manifestam desta forma. Assim, colocamos o problema enquanto distante e de perto nossas relações e hierarquias continuam intactas:
em casa as mulheres (esposas, irmãs, mães, amigas) continuam sendo as únicas responsáveis pelas tarefas domésticas e cuidado dos filhos, no trabalho as mulheres continuam sendo alvo de piadas em relação a suas capacidades intelectuais ou sobre sua aparência física além de ganhar menos exercendo igual função, os gays que dão “pinta” são rejeitados em entrevistas de emprego, motivo de piada no dia a dia do trabalho e de agressões nos espaços públicos, no rua as mulheres continuam sofrendo cantadas invasivas, assédios morais e físicos, de noite as travestis são espancadas pelo simples fato de serem travestis, na escola as meninas são frequentemente desacreditadas de suas capacidades e habilidades apenas por serem mulheres, as mulheres negras não se veem representados nos materiais didáticos e as transexuais são expulsas da escola e de seus lares. Na publicidade o corpo da mulher é público e moeda de troca de bens de consumo, nos canais de televisão a escravidão ainda não foi abolida e os negros, quando sub-representados, no geral ocupam papéis estereotipados. Nos jornais e revistas as mulheres são lidas como histéricas, descontroladas emocionalmente e é valorizado um padrão de comportamento do século passado que vinculada a mulher ao espaço privado, recatada e do lar.
A sexualidade das mulheres lésbicas é objetificada e vendida como fetiche unicamente para o prazer masculino. Nas rodinhas de conversa dos bares as mulheres são frequentemente julgadas por seu comportamento, roupas e vida sexual. Em espaços de lazer gays são vistos enquanto promíscuos e qualquer manifestação de carinho com seus companheiros são vistos com desconfiança, ojeriza e desrespeito. 
       Tais exemplos pontuais são apenas uma forma de compreendermos e relacionarmos os casos emblemáticos enquanto práticas de nosso cotidiano que culminam em situações extremas. Não nos enganemos: essa violência é diariamente vivenciada.
Não bastasse tratar o estupro ocorrido no Rio de Janeiro enquanto bizarro em que os agressores são patologizados, para não se verem refletidos nessa realidade e assim compartilhar da culpa de uma sociedade que legitima e reproduz a cultura do estupro, as narrativas em torno do caso passaram ora a negar o ocorrido ora desqualificar a vítima. O passado da vítima foi vasculhado e fatores como: ter filho, usar drogas e frequentar bailes funk passaram a deslegitimar o estupro, ou melhor, a justificar a violência. A menina se tornou vadia, e nessa lógica, merecia ser estuprada. E as mulheres saíram as ruas, mais uma vez, para gritar pelo direito aos nossos corpos, pela liberdade de poder ser quem quiser, para denunciar a violência que subjuga, humilha e mata, para enfatizar que lugar de mulher é onde ela quiser e escancarar as relações machistas que todas somos submetidas. Escancarar que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada e que, portanto, não se trata de um caso isolado, de doentes, mas de relações hierárquicas e desiguais que acarretam em violência.
       E dizer que essa violência é diariamente vivenciada também significa trazer para mais perto as tragédias recém ocorridas quando os dados da homofobia mostram uma realidade bastante sangrenta de que no Brasil acontecem 6 atentados de Orlando por ano.
  O Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil publicado em 2012 pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH/PR) informa que a intolerância mata e viola diretos humanos já que naquele ano ocorreram pelo menos 310 homicídios com a população LGBTT. [1]
  Segundo os relatórios do Grupo Gay Bahia (GGB) esse número praticamente se mantém nos anos seguintes com o registro de 312 mortes de gays, travestis e lésbicas no ano de 2013, de 336 mortes, incluindo 9 suicídios, no relatório de 2014 e de 318 assassinatos no ano de 2015. 
    As transexuais e travestis apresentam um risco 15 vezes maior de serem assassinadas o que torna o Brasil líder mundial dessa chacina tantas vezes invisibilizada: mais da metade dos homicídios praticados contra transexuais em todo mundo ocorrem no Brasil. Parece mais fácil a comoção de ataques que são distantes, como o mais recente ocorrido nos EUA. Homofóbicos são os outros. O caso se isola e culpa escorre por entre os dedos como água, já que nada se relaciona com nosso cotidiano opressor.
Quando não patologizado, há a tentativa de não qualificar a motivação do crime por ideologia homofóbica e aí o terrorismo, termos por vezes etnocêntrico utilizado para qualificarmos qualquer alteridade, ganha espaço. O terrorista já foi o bárbaro, o monstro, o selvagem, o não-civilizado, o estrangeiro, o outro. O terrorismo é o mal a ser combatido que justifica ataques contra estrangeiros, refugiados, minorias étnicas e que tem a legitimidade do Estado.
         Entender o ataque de Orlando, ocorrido em uma boate gay, apenas sob o viés terrorista é não reconhecer que um público alvo foi escolhido, a população LGBTT, e tornar invisível suas pautas, suas demandas e, portanto, as possíveis soluções para o enfrentamento deste tipo específico de violência.
Encarar o agressor – homofóbico - unicamente pela lógica terrorista pode. O que não pode é encarar como terrorismo de estado as ações da polícia que espanca e mata brutalmente Luana Barbosa dos Reis, mulher lésbica, negra e pobre por se recusar a ser revistada por um policial homem, da mesma polícia que agride e desfigura o rosto da travesti Verônica dentro da cadeia e que atira, durante uma troca de tiros, na trabalhadora negra, mãe de quatro filhos, Cláudia da Silva Ferreira, arrastando seu corpo, pendurado no para choque da viatura, pelo chão por cerca de 250 metros.
      Os direitos das chamadas minorias[2] também tem sido alvo de ataques de uma ofensiva conservadora. Na política, bancadas conservadoras tentam instituir a “cura gay” através de tratamentos psicológicos e proibir o debate de gênero e sexualidade nas escolas. Deputados de dez partidos querem anular o decreto presidencial (nº395/2016) da então presidenta Dilma, que institui o uso do nome social de travestis e transexuais nos órgãos da administração pública direta e indireta.
    Apesar dos dados alarmantes sobre homofobia o projeto em tramitação pela criminalização de ataques contra a população LGBT encontra resistência e dificuldade de aderência. Ao contrário, presidente da câmara afastado, Eduardo Cunha, propõe retomada dos projetos de criação do dia do orgulho heterossexual e da criminalização do preconceito e discriminação contra heterossexuais. O mesmo deputado também propõe o projeto de lei nº5069 que representa verdadeiro retrocesso em relação aos direitos historicamente conquistados quanto a atenção e cuidado com as vítimas de violência sexual, dificultando as orientações, atendimento e os próprios casos em que o aborto é legalizado no Brasil.
      A própria configuração atual da política brasileira é a representação desse retrocesso: se nas eleições de 2014 a participação das mulheres já representava menos de 10% do total de parlamentares, com a posse do presidente interino Michel Temer, todos os ministérios passaram a ser comandados por homens brancos e marcados pela exclusão de importantes pastas, como o Ministério das Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos.
    Em momento de negação e retrocesso de direitos, a cultura do ódio se fortalece e atrocidades como os ocorridos nas últimas semanas veem à tona. A homofobia, o machismo, o racismo, cada vez mais institucionalizadas pelo Estado, legitimam situações extremas e práticas autoritárias rotineiras. As tragédias nos informam sobre os fascismos interiorizados e vivenciados cujo ódio é banalizado, naturalizado, não responsabilizado, não refletido, não questionado. O fascismo tem repulsa ao conhecimento e aversão a qualquer alteridade.
     Quando uma mulher, um gay, uma travesti causa incomodo ou abjeção por não corresponderem a um determinado padrão e a reação é autoritária, violenta e não dialógica trata-se de uma questão de poder. E onde há poder há resistência. A lógica de não compreensão do outro, das diferenças, das alteridades, sustentadas por uma política institucional não representativa e com ataques aos direitos das minorias, é solo para que essas violências brotem e que o ódio torne o diferente alvo de ataques e repulsa nas relações cotidianas. Por isso estar em diálogo é conseguir compreender as diferenças sem aniquilá-las. Os gritos das ruas são resistência de quem pede outra forma de ver o mundo, outra forma de serem enxergadas, compreendidas e vivenciadas. Precisamos entrar em contato, ouvir sempre e mais as vozes silenciadas pelo autoritarismo.
          


[1] Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais 
[2] Minoria é pensada não no sentido quantitativo, mas na possibilidade de voz ativa e de participação e interferência em instâncias decisórias do poder. Segundo Deleuze (1992, p.218) uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria e o que define a maioria é o modelo ao qual é preciso estar conforme, como exemplo o europeu médio adulto macho habitante das cidades. Para Deleuze a minoria não tem modelo, é um devir, um processo e o povo é sempre uma minoria criadora. 

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